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Federação Espírita de Mato Grosso do Sul

Estudo continuado do Livro Dos Espíritos


ESTUDO SOBRE A QUESTÃO Nº 46

Questão nº 46.

Ainda há seres que nasçam espontaneamente?

Resposta

"Sim, mas o gérmen primitivo já existia em estado latente. Sois todos os dias testemunhas desse fenômeno. Os tecidos do homem e dos animais não contêm os germens de uma multidão de vermes que só esperam, para desabrochar, a fermentação pútrida necessária à sua existência? É um pequeno mundo que dormita e que se cria.”

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Inicialmente, convém alertar a todos os estudiosos que este ensaio retrata apenas a interpretação pessoal deste escritor, sob a ótica espírita, a respeito da geração espontânea, tema espinhoso para os pesquisadores de todas as épocas. Portanto, reconhecemos, a priori, que este humilde trabalho não pretende dar a palavra final sobre temática tão controvertida, razão pela qual não exclui outras abordagens, preferencialmente de biólogos, que possam explicar melhor o fenômeno em análise.

Em O Livro dos Espíritos, eis como está posta e respondida a questão n 46: “Ainda há seres que nasçam espontaneamente? Sim, mas o gérmen primitivo já existia em estado latente. Sois todos os dias testemunhas desse fenômeno. Os tecidos do homem e dos animais não contêm os germens de uma multidão de vermes que só esperam, para desabrochar, a fermentação pútrida necessária à sua existência? É um pequeno mundo que dormita e que se cria.”

Algumas pessoas vêm na resposta dos Espíritos a essa pergunta de Kardec a sanção do Espiritismo à teoria da geração espontânea, que sobreviveu desde antes de Aristóteles, tida como desbancada, em 1862, por Louis Pasteur (1822-1895). Mas, será isso mesmo? A resposta à questão n. 46 da primeira obra básica estaria corroborando a teoria da geração espontânea, tal como era descrita pelos seus defensores? Vejamos.

A geração espontânea é uma das mais tormentosas questões porque está ligada ao surgimento da vida na Terra, tema de largo alcance filosófico. Ela se equipara, em complexidade, à pergunta milenar sobre a existência ou não de vida em outros planetas.

De fato, se este é um tema que não pode e não deve ser tratado com leviandade, do ponto de vista biológico, imagine o quanto deve ser levado a sério quando nele se entroniza o aspecto espiritual, do qual não cogitam os pesquisadores terrenos. Desse modo, o único jeito de fazer uma abordagem isenta e responsável sobre o assunto é tratá-lo dentro do contexto histórico, sob o risco de tirarmos conclusões ilógicas e falsas.

O conceito moderno de geração espontânea praticamente continua o mesmo da época de Kardec. O nome utilizado atualmente é “abiogênese”, que é a hipótese de geração de vida a partir da matéria inanimada ou inorgânica (origem não biológica), em oposição à biogênese, circunstância em que todas as criaturas, inclusive as microscópicas, se originam de outras pela reprodução.

No contexto científico hodierno, a teoria da abiogênese adquire robustez e destaque em virtude do avanço em ramos como a bioquímica e a biologia molecular, os quais fornecem descrições seguras sobre a síntese e a autocatálise de compostos orgânicos essenciais à geração e manutenção da vida. Por outro lado, investigações recentes[1] de camadas fósseis constituídas pela atividade natural de micro-organismos (os chamados estromatólitos) nos períodos mais recuados da formação da Terra (por volta de 3,7 bilhões de anos), fornecem evidências sobre uma possível formação abiótica dos compostos orgânicos.

Ressalve-se, porém, que, no Século XIX, não estava em discussão a possibilidade de se realizar estudos mais aprofundados ou mesmo experimentos sobre abiogênese, e sim sobre heterogenia, que “significava o surgimento de um ser vivo a partir de substâncias orgânicas provenientes de um outro ser vivo diferente (animais e plantas em decomposição, ou infusões obtidas fervendo partes de animais e plantas)”, o que é “diferente da ideia de que poderiam surgir seres vivos a partir de matéria inorgânica”.[2] De fato, na época do Codificador havia até mesmo dúvidas quanto à natureza atômica da matéria[3], algo que também contribuía para as limitações nas investigações sobre a síntese molecular dos compostos bioquímicos, obstaculizando, assim, as pesquisas sobre a geração espontânea.

Não há dúvidas de que a teoria da geração espontânea entrelaça-se com a investigação acerca da origem da vida. A propósito, de onde surgem os seres vivos? Desde a Antiguidade já se sabia que os animais e plantas nascem de outros animais e plantas. Mas como explicar o aparecimento da vida no início da formação do Planeta, se aqui não havia outros seres vivos? Vista por este ângulo, a questão formulada por Kardec fazia todo sentido. E mais sentido ainda fazia a resposta dos Espíritos à questão n. 46, que de certa forma corroborava o que já havia sido dito na questão anterior (n. 44), a respeito da origem dos seres vivos: “A Terra continha os germens, que aguardavam o momento favorável para se desenvolverem” (Sublinhei).  Observe-se, portanto, que, ao tempo do lançamento das bases da Codificação Espírita, a temática geração espontânea estava (como o está na atualidade) imbricada com as pesquisas sobre a origem da vida, e permanecia no centro das discussões científicas, religiosas e sociais da época.

Portanto, ao contrário do que se propaga, inadvertidamente, as discussões de alto nível da época não estavam centradas na possibilidade ingênua do surgimento, como que por mágica, dos seres vivos já organizados, como sapos e ratos a partir de material putrefato, tese que não era esposada por Kardec, o qual se alinhava à teoria da geração espontânea de seres “de organização mais simples”,[4] tal como se dera nos primórdios do surgimento da vida na Terra. Aliás, em “A Gênese” (item 23, cap. X), Kardec ressalvou: “Sabe-se que os seres orgânicos complexos não se produzem dessa maneira”.

Saliente-se que a teoria da geração espontânea foi sofrendo modificações com o passar do tempo, sobretudo após a generalização do uso do microscópio a partir do Século XVII. No início, abrangia de vermes e insetos a animais maiores, mas paulatinamente foi sendo restringida a animais cada vez menores. Com o tempo, a tese de geração espontânea passou a ser aplicada somente para explicar o surgimento de infusórios e a presença de vermes intestinais no homem e em outros animais.[5]

Nem se diga que o Codificador ignorava as experiências científicas, em um caso particular, que justificavam o aparecimento dos vermes a partir de ovos postos por moscas em carne morta, fato assim comentado na Revista Espírita de julho de 1868:

 

Objetarão, sem dúvida, que são os ovos das moscas na carne morta. Mas isto nada provaria, porque os ovos das moscas são depositados na superfície, e não no interior dos tecidos, e porque a carne, posta ao abrigo das moscas, ao cabo de certo tempo não está menos apodrecida e cheia de vermes; muitas vezes, até, são vistos invadindo o corpo antes da morte, quando há um começo parcial de decomposição pútrida (...).[6]

 

Apesar disso, cientistas renomados, contemporâneos de Pasteur, em diversos países, tais como Félix Archimède Pouchet, Paolo Mantegazza e Charlton Bastian, também realizaram experiências semelhantes, que apresentavam conclusões diferentes:

 

(...) é importante reconhecer que a controvérsia sobre a geração espontânea não foi resolvida nem mesmo com Pasteur, pois outros pesquisadores continuaram se dedicando ao tema, como o médico escocês Charlton Bastian (1837-1915) (Martins, 2009, p. 96).[7] (Realcei).

 

Vejamos o que disse o Codificador, no início de 1868, cerca de seis anos após a célebre experiência de Louis Pasteur, na qual este defendeu a tese anti-heterogenista:

 

20. É natural se pergunte por que não mais se formam seres vivos nas mesmas condições em que se formaram os primeiros que surgiram na Terra.

Sobre esse ponto, não pode deixar de lançar luz a questão da geração espontânea, que tanto preocupa a Ciência, embora ainda esteja diversamente resolvida. O problema é este: Formam-se, nos tempos atuais, seres orgânicos pelas simples reunião dos elementos que os constituem, sem germens, previamente produzidos pelo modo ordinário de geração, ou, por outra, sem pais nem mães? (...)

No estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos estabelecer a teoria da geração espontânea permanente, senão como hipótese (...).[8] (Grifos meus e no original).

 

Para entender melhor a questão da geração espontânea, convém não ignorar que no Século XIX um novo elemento foi entronizado nas ciências biológicas, que causaria, mais tarde, uma mudança de paradigma nas pesquisas sobre a origem da vida: a teoria da evolução, proposta pelo naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829) e depois por Charles Darwin (1809-1882). O marco dessa revolução científica foi estabelecido com o lançamento do livro “A Origem das Espécies”, ocorrido em 1859 pelo naturalista inglês, dois anos após a publicação de “O Livro dos Espíritos”.

Portanto, quando a revelação espírita veio a lume, em 1857, muito provavelmente Kardec ainda não havia tomado contacto com a teoria darwiniana, mas os Espíritos da Codificação já adiantavam, na questão número 185, que o estado físico e moral dos seres vivos não é perpetuamente o mesmo em cada globo, bem assim na questão número 540, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou pelo átomo. Basta este argumento para deitar por terra a teoria da geração espontânea de seres complexos, uma vez que, ordinariamente, a natureza não ocorre aos saltos. Todavia, suspeita-se que o mesmo não se dê quanto aos seres mais simples da criação:

 

O homem, assim como todas as outras formas de vida do planeta, está totalmente inserido nesse contexto [da evolução]. Resta, então esclarecermos que dentro desse raciocínio evolutivo não pode haver Geração Espontânea, a não ser para seres muito primitivos em ambientes igualmente primitivos. Usamos aqui o temo “geração espontânea” com o único objetivo de especificar o início da primeira forma de vida em um ambiente abiótico.[9] (Realcei).

 

Note-se que, mais recentemente, essa teoria (da geração espontânea) voltou à baila quando os cientistas conseguiram sintetizar, em laboratório, material orgânico a partir da matéria inorgânica e inanimada[10], como apontam os cientistas contemporâneos:

 

Ironicamente, ao examinarmos as teorias modernas que visam explicar a origem da vida, a geração espontânea reaparece. Não, claro, como consequência de poderes misteriosos ocultos no ar, mas da síntese de compostos orgânicos a partir de compostos inorgânicos.[11] (Destaquei).

***

Em 1870, o biólogo inglês Thomas Henry Huxley defendeu o trabalho de Pasteur, numa palestra intitulada “Biogênese e Abiogênese”. (...) Contudo, quase um século após a apresentação de Huxley, a abiogênese novamente estaria em foco, na mente de uma nova geração de cientistas, quando eles começaram a indagar sobre a origem da primeira vida na Terra.[12] (Grifei).

 

Entretanto, segundo os imortais, “o espírito é independente da matéria”, motivo pelo qual é lícito concluir, do ponto de vista espírita, que a matéria em si não gera vida e que todo ser vivo, seja qual for o estágio evolutivo em que se encontre, provém sempre do mundo espiritual, que “é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo”. O que é espontâneo aos nossos olhos, não o é para os Espíritos: a união entre o espírito (princípio inteligente) e a matéria é necessária à manifestação do primeiro, porque não temos organização apta “para perceber o espírito sem a matéria”, visto que nossos “sentidos não foram feitos para isso”.[13]

Assim, é preciso muita cautela na interpretação da resposta dos mentores à questão n. 46, como se ela endossasse a geração espontânea, até porque os cientistas da época, contrários à mesma, não cogitavam a existência, em seus experimentos, de germens (estágio inicial do desenvolvimento de seres orgânicos) como pressuposto para o surgimento da vida, que é o que está posto na resposta dos Espíritos à questão n. 46, corroborada pela questão n. 44. Do contrário, Kardec não teria ressalvado sua opinião pessoal (favorável ao surgimento permanente espontâneo de seres simples), enfatizando que a geração espontânea é da alçada das ciências ordinárias, assim como a teoria da evolução dos seres vivos, que por ele já era considerada, em 1868, como outro elemento importante nas pesquisas sobre a origem da vida, opinião essa assim registrada na Revista Espírita de julho do referido ano:

 

Em nossa obra A Gênese [não em O Livro dos Espíritos], desenvolvemos a teoria da geração espontânea, apresentando-a como uma hipótese provável. Alguns partidários absolutos desta teoria admiraram-se de que não a tivéssemos afirmado como princípio. A isto responderemos que, se a questão está resolvida para uns, não o está para todos, e a prova é que a Ciência ainda está dividida a respeito. Aliás, ela é do domínio científico, onde o Espiritismo não pode colher e onde nada lhe cabe resolver de maneira definitiva, naquilo que não é essencialmente de sua alçada.[14] (Grifos meus).

 

Por tudo isso, não é de se estranhar a existência de outros pesquisadores (antigos e modernos) que refutam a tese de que Pasteur resolveu, em definitivo, esse enigma. Em suma, toda análise da vida, em seus múltiplos aspectos, sem a consideração do elemento espiritual, perde a consistência, esbarrando o homem em obstáculos intransponíveis, pois a matéria não é capaz, por si mesma, de gerar seres vivos.

 

[1] DODD, Mathew S. [et. al]. Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Nature, v. 543, p. 60-65, 2017.

[2] MARTINS, Lilian AL-Chueyr Pereira. Pasteur e a geração espontânea: uma história equivocada. Artigo publicado no IV volume da obra “Filosofia e História de Biologia”, p. 69 e 87. Disponível em <http://www.abfhib.org/FHB/FHB-04/FHB-v04-03-Lilian-Martins.pdf>. Acesso em 23.4.2017.

[3] Alguns cientistas destacados do Século XIX, como Ernst Zermelo (1871-1953) e Friedrich Ostwald (1853-1932), se opunham à ideia de uma teoria atômica para a matéria.

[4] KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano 11, p. 293, julho de 1868. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Cap. A geração espontânea e A Gênese.

[5] CARVALHO, Eduardo Crevelário.  A controvérsia sobre a geração espontânea entre Needham e Spallanzani: Implicações para o ensino da Biologia. Dissertação (Mestrado). São Paulo: USP, 2013, p. 18. Orientadora: Profª Drª Maria Elice Brzezinsk Prestes. Área de Concentração: Ensino de Ciências. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/81/81133/tde-25062013-103329/pt-br.php>. Acesso em: 23.4.2017.

[6] Ob. cit., p. 292.

[7] CARVALHO, Eduardo Crevelário.  Ob. cit., p. 128.

[8] KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 34. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1991. Cap. X, it. 20 e 23, p. 199 e 201, respectivamente.

[9] IANDOLI JÚNIOR, Décio. Da alma ao corpo físico. 2. ed. São Paulo: AMEBrasil, 2016, p. 6.

[11] GLEISER, Marcelo. Criação imperfeita. Cosmo, vida e o código oculto da natureza. Cosmo, vida e o código oculto da natureza. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 263.

[12] HART-DAVIS, Adam [et.al.]. O livro da ciência. Trad. Alice Klesck. SP: Globo Livros, 2014, p. 159.

[13] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2006, questão n. 25; introdução, item VI; e questão n. 25-a, respectivamente.

[14] Ob. cit., p. 285-286.



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