A responsabilidade do adepto na difusão do Espiritismo

 

 

“A Doutrina é, sem dúvida, imperecível, porque repousa nas leis da Natureza e porque, melhor do que qualquer outra, corresponde às legítimas aspirações dos homens. Entretanto,a sua difusão  e a sua instalação definitiva podem ser adiantadas ou retardadas por circunstâncias várias, algumas das quais subordinadas à marcha geral das coisas, outras inerentes à própria doutrina, à sua constituição,à sua organização.”(Allan Kardec)[i]

                Desde que Allan Kardec deixou lavradas essas considerações há mais de um século, a preocupação com a difusão da Doutrina Espírita permanece a mesma. Os problemas que se afiguram, ora aqui, ora ali, não se constituem, ou podem se atribuir à Doutrina; estão anacronicamente localizados no âmbito da sua difusão. Devem repousar aí nossos cuidados com a forma como nos instituímos em seu fiel – ou, infiel – depositário. A responsabilidade é imensa. Não há uma organização secreta de iniciados distinguidos com essa missão. Todos - todos nós - que, um dia se filiaram voluntariamente ao exercício da difusão dos seus ensinamentos são e serão responsáveis pelo presente e pelo futuro do Espiritismo e o alcance de sua finalidade - retardando-a, ou adiantando-a - frente à Humanidade.

            Os difusores da Doutrina Espírita são aqueles que assumem esse papel, primeiramente, diante de sua consciência e diante da própria Doutrina, posteriormente, perante a sociedade, no tempo em que vive e convive com seus semelhantes. Os fiéis (ou infiéis) difusores, somos nós que ministramos palestras, promovemos cursos, planejamos e executamos eventos, organizamos e dirigimos suas práticas em nossas instituições.  Inclusive, difundimos a Doutrina Espírita quando a revelamos em nosso cotidiano de cidadãos comuns, na maneira como nos relacionamos em nossas casas, em nossos  ambientes de trabalho, pública e privadamente. Somos nós, dirigentes de entidades, monitores de cursos, praticantes das reuniões mediúnicas, ministrantes do passe. É de nossa boca, que, muitas vezes, uma pessoa toma contato pela primeira vez com as “verdades” traduzidas pelo Espiritismo. São nossos atos que espelham a moral e o conhecimento que o Espiritismo veio legar ao mundo. Conhecer a Doutrina, ou, pelo menos, estudá-la, permanente e incansavelmente, é obrigação de todo espírita que se delega o papel de divulgador desse legado. Não nos basta interpretá-la ao nosso bel prazer em conformidade com nossas unilaterais cosmovisões eivadas de particularidades culturais e vícios morais e sociais. Para os difusores da Doutrina Espírita de hoje, os fatos mundanos deverão – precisarão – ser interpretados por sua ótica absolutamente adequada.

O verdadeiro adepto (para Kardec, “os esclarecidos”) não se esquivará diante dos acontecimentos e fatos que assolam o cotidiano comum, na atualidade; este tem obrigação de saber debater e argumentar sobre temas da contemporaneidade (determinismo, fatalismo, compromissos preexistentes à reencarnação, justiça divina em todas as instâncias, defesa - de toda - vida em todas as circunstâncias, à luz do Evangelho e da Doutrina), sem ser especista, dogmático e fundamentalista. Isso envolve posicionamento firme com relação aos acontecimentos e aos fatos da nossa época.  Entender o porquê da prevalência dos valores materialistas, em nossa sociedade, bem como saber enxergar os males trazidos pelo radicalismo religioso.  Ter uma visão ampliada a respeito dos costumes e das crenças do nosso tempo, ou seja, buscar compreender a diversidade de mundos em nosso mundo. Ao adepto estudioso, tudo poderá e deverá ser traduzido à luz dos conhecimentos adquiridos. Para ele, não haverá dubiedade de opiniões, porque a compreensão e o entendimento foram adquiridos e mantidos sob o filtro do conhecimento espírita, permanentemente, consultados, estudados, e, mesmo, debatidos: “(...) Dez homens unidos por um pensamento comum são mais fortes do que cem que não se entendam”, disse Kardec.[ii]

O Espiritismo tem como a finalidade o alcance da Humanidade – “o grande objetivo humanitário “, no dizer de Kardec[iii] - , mas, muitos dos seus seguidores, o fazem parecer um segmento religioso, no qual, a interpretação de um e outro é dada como se falasse em nome  da própria Doutrina. Essa é a questão primeira: como estamos interpretando e falando em nome da Doutrina? Estaríamos lhe sendo fiel seguidor? De que lado nos classificaremos, os de seus  “aliados”, ou “antagonistas”[iv]?

Com o advento e a instantaneidade dos aparatos tecnológicos, o que se constata é a divergências de opiniões e dubiedades de interpretações, entre espíritas, frente aos acontecimentos que, cada vez mais, vem surpreendendo o mundo de hoje (tais como os que acometeram os jovens na tragédia de Santa Maria; a crença no “fim do mundo” em 2012, etc). Diante de tais fatos, o adepto esclarecido tirará suas dúvidas, se as tiver, no estudo e na pesquisa do Evangelho e no corpo doutinário-espírita; mergulhará, de novo, no estudo e entendimento das leis morais, procurará sanar suas dúvidas juntamente com o seu grupo de estudos e junto ao organismo central do qual, certamente, fará parte; não emitirá opiniões pessoais nem “explicações” que só poderiam ser entendidas após profundos e sérios estudos. Não professará externamente, “verdades” que não serão compreendidas, ditas fora de hora e lugar. Mas, saberá compreendê-las. Lembrar-se-á de que “(...) para a doutrina da vida futura doravante dê os frutos que se devem esperar, é preciso, antes de tudo, que se satisfaça completamente à razão; que corresponda à ideia que se faz da sabedoria, da justiça e da bondade de Deus”, tal como asseverou Kardec (OP, 388)

O adepto consciencioso do seu papel na difusão da Doutrina Espírita não se arvorará a assumir lideranças, solitárias e apartadas, de ditadores-pastorais na difusão do Espiritismo; trabalhará pela obra coletiva da consecução dos objetivos da Doutrina, espraiando-a para o mundo e para os leigos suas concepções cristãs. Assim como Cristo, o Espiritismo não veio destruir as leis, visto que estas são universais, irrevogáveis desde sempre. Possa o adepto esclarecido trabalhar pela coletividade, pela união, pelo entendimento, compreensão e difusão dessas verdades, sem escolhos pessoais.

Que a responsabilidade, a humildade, a coerência nos reconduza ao estudo e as ações coletivas e que o personalismo seja banido de nossas fileiras. Na questão da difusão da Doutrina Espírita, enquanto não consegue domar em si qualquer perspectiva de individualidade, melhor age o que não age. Deixemos de nos dividir tanto; juntos, somos mais sábios e menos desagregadores. Caminhemos para que possamos assumir com responsabilidade e firmeza a condição de dignos divulgadores desse legado doutrinário. Tomara que os espíritas do século XXI, que se filiam à tarefa da difusão do Espiritismo, possam sanar, o quanto antes, os problemas apontados por Kardec, já no século XIX.

 

 



[i] Allan Kardec: Obras Póstumas, p. 34 6

[ii] __________: O P, 382: “... Em tal caso, a miscelânea de vistas divergentes tira a força  de coesão entre os que desejariam andar juntos, exatamente como um líquido que, infiltrando-se num corpo, ergue obstáculo à agregação das moléculas desse corpo.”

[iii] ___________: OP, 382

[iv] _________: OP, 381

 

 

 

 

 

 

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