Deus também estava lá...

 

 

 

Pode-se reduzir a apenas dois tipos de fundamentação filosófica a respeito da vida. Ou se crê em Deus, ou não se crê. A opção por uma dessas concepções filtra toda a significação que damos a própria existência e se reflete em nossos atos. Excetuando os que optam pela segunda, de alguma forma, independente de nossas religiões, crê-se em um Ser Maior e organizador de todas as coisas e acontecimentos. Esse Ser Maior recebe, em conformidade com valores, crenças e costumes, essa e aquela nomenclatura, dentre tantas que intentam enclausurá-lo em alguma denominação. Para os que o creem em Deus, sob o imperativo da fé mosaica, ele será concebido como um ente justiceiro e vingador. Há ainda quem o tenha em sua representação antropológica, tal como nós, sob nossa medição.

Mas, o Deus que estava presente na Tragédia de Santa Maria é o Deus de Amor, tal como no-lo apresentou Jesus. O Deus-Pai que acolhe e resolve. É esse que, tal como está acolhendo essas almas que retornam a Sua Casa, ao Seu Reino, acolhe e consola, também, suas famílias, seus amigos, seus conterrâneos enlutados.

Os minutos de horror ocorridos, ninguém, que lá não esteve, poderá dimensionar; vestígios é tudo o que temos, pelo registro das tecnologias disponíveis. Obviamente que um conjunto de erros fez com que aqueles jovens se deparassem, prematuramente - sob nossa dimensionalidade de tempo - com o instante inevitável da morte. É certo que a “câmara do holocausto” era por si mesmo uma promessa de catástrofe, catástrofe que os nossos jovens jamais imaginariam ser possível de acontecer, tão cheios de vida e esperança, recém-saídos de suas infâncias.

Diante do inusitado e da dor, da irresponsabilidade e da ganância de todas as instâncias, pública e privada, ficamos diante da ponderabilidade e vulnerabilidade das coisas materiais. Mas, somos muito mais fortes do que imaginamos; há uma força que nos move e nos obriga a continuar e testemunhar o amanhecer, o entardecer e o anoitecer do dia seguinte, com uma significativa diferença. Para os que creem haver um Deus que nos conhece pelo nome, que tem nossos fios de cabelos contados, absolutamente bom, onipresente e onisciente, senhor dos nossos destinos - que nos precede a existência, que nos traz à vida, que nos acolhe nos momentos finais – cujo olhar a tudo alcança; a perda deixa de ser irremissível. Haverá continuidade, novos encontros, momentos de júbilo, mais além; quando teremos também o entendimento do que agora, diante da perplexidade, não temos como compreender.

A hora é de humildade diante dos fatos. A vida tem um propósito e suas leis expressam os desígnios de Deus. A prescrição axiológica de que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária, não é apenas uma lei da física, é uma lei divina. Os proprietários da boate estavam equivocados nos excessos de cuidados em preservar seu patrimônio em detrimento de vidas preciosas. De certo, os responsáveis pela conjuntura de fatores que incorreram no extermínio de mais de duas centenas de jovens, ressarcirão com sua cota de responsabilidade. A justiça dos homens não o fará na medida de sua justeza, mas, a justiça de Deus, por intermédio das leis da vida, fará os reajustes necessários, em benefício dos próprios infratores, porque o Deus adimensional, misericordioso e severamente justo, não quer vingança, quer que seus filhos aprendam com os próprios erros.

Por respeitar nosso livre-arbítrio, Deus não interfere em nossas opções, mas, também, por nos amar, não nos deixa sós. Ele em sua onipresença e onisciência estava lá, antecedendo a tragédia, com sua rede angelical de acolhimento. Ou cremos nisso, ou não cremos em nada.

Após a tragédia de Santa Maria, nenhum de nós é mais o mesmo. Que Deus nos some, nos ajude a superar nossa ignorância sobre os seus desígnios e propósitos e nos conduza a processar o entendimento, para que possamos prosseguir com a nossa  jornada. Paz aos corações enlutados.

 

Maria Angela Coelho Mirault

Professora Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo

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