Nenhuma religião pode assegurar a cura

 

A crença no sobre-natural sempre esteve presente na história da humanidade. Desde que o homem, buscando compreender a morte, passou a adornar os túmulos dos seus entes queridos, a crença no que possa existir além da vida vem acompanhando sua jornada terrena. Desse modo, crer em deuses, anjos, demônios e espíritos não constitui nenhuma novidade, nem, tão pouco, privilégio dessa ou daquela crença. Não tendo condições de apreender a realidade sobre-natural, esse homem a foi traduzindo de acordo com o seu entendimento, parâmetro, repertório e padrão cultural ao longo dos séculos. Dos Vedas a Bíblia e aos Evangelhos constata-se o registro de manifestações extra-físicas, sob as mais variadas denominações. A tradição judaico-cristã foi a grande responsável pela sacralização ou demonização dessas ações interventoras, provenientes de entidades sobre-naturais, inclusive, em conformidade com os interesses políticos da época; Joana D’Arc foi sacralizada e demonizada de acordo com o poder político absolutista e arbitrário, na França, sob a égide da igreja romana.

De modo geral, as religiões derivadas do cristianismo optaram por manter a ideia secular de forças sobre-naturais,  apresentando-as, ora como anjos e santos (espírito-santo), ora como demônios satanizados a influenciar os seres do mundo físico. É justamente nesse vórtice que se pode situar a contribuição do pedagogo e professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) ao pensamento histórico-filosófico-religioso-ocidental. Buscando o entendimento sobre os fenômenos considerados sobrenaturais, debruçou-se ele em seus estudos. Resultante de sua verificação e de suas constatações depreendeu e extraiu um novo corpo de conhecimento, independente de crenças e de denominações religiosas. Seus estudos - sem que tivesse a pretensão de tudo revelar - levantaram parte do véu que cobre a realidade da vida transcendental.  Determina que - seja por ignorância ou incapacidade de compreensão humana - o que se creditava ao sobrenatural nada mais seria do que parte intrínseca às Leis Naturais que regem a vida. Publicando seus estudos e constatações em cinco obras, sob o pseudônimo de Allan Kardec, o ilustre professor derrubou alguns conceitos filosófico-religiosos tidos como incontestáveis a sua época: 1) sim, existe uma causa e um propósito para todas ocorrências da vida, determinando, com isso, a inexistência do acaso; 2) os seres são preexistentes e sobreviventes ao fenômeno da morte; ou seja, a morte não existe; 3) somos todos seres imortais habitantes dessas realidades e em processo contínuo de aperfeiçoamento; 3) sim, o mundo físico e extra físico relacionam-se, portanto, um ente de um mundo pode interferir no outro e, por ser inerente às leis da natureza, o fenômeno nada tem de anormal ou de sobrenatural. Em regra geral, essa poderia ser a síntese do legado de Kardec ao pensamento religioso contemporâneo e direcionado a todas as religiões – ele nunca pretendeu ter seguidores ou constituir segmentos arrogantes da verdade absoluta.

O Espiritismo, hoje, é uma religião constituída, institucionalizada e tem sua fundamentação nas obras de Kardec e em inúmeras outras obras complementares (não só as de Chico Xavier). Suas práticas, derivadas desse conhecimento, são disponibilizadas no que se convencionou denominar de centros espíritas. Nesses lugares (mas, não em todos), onde se deve oferecer o estudo desse legado, e, principalmente, se deve praticar a caridade, busca-se, também, a orientação e a intervenção do mundo espiritual em favorecimento aos que lá vão, assim como todas as práticas religiosas procuram fazer, por intermédio de medianeiros, tradutores, dessas duas realidades. Mas, o Espiritismo não é só isso.

Desse modo, a propagação de que o Espiritismo é capaz de promover a cura de doenças que a medicina imputa como incuráveis denota ignorância a respeito da finalidade do Espiritismo. A fé atribuída e propagada, pela mídia nacional - em matéria de capa – ao ator global que “alia tratamento convencional ao espiritismo” pode até ter seu caráter meritório, posto que sirva de inspiração a outras pessoas que possam estar atravessando o mesmo drama em sua jornada terrena, mas, a expectativa e a promessa de cura de um câncer raro e avassalador pela intervenção espiritual, a qual se submete, é uma falácia. Nada mais nefasto para o próprio Espiritismo do que a difusão insensata dessa promessa de cura. Nenhum intermediador (médium, padre ou pastor) pode garantir isso.

O Espiritismo é, antes de tudo, esclarecimento. E porque esclarece, consola e porque consola, conforta. O Espiritismo não pode ser vendido como mercado de troca, confrontando-se com a Ciência. Não foi o que o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail prenunciou e muito menos o que prognosticou para o campo de conhecimento que legou ao pensamento filosófico-religioso-ocidental-contemporâneo. Não, nem o Espiritismo nem nenhuma outra religião pode assegurar a cura do corpo. O que o referido ator poderá obter por intermédio do Espiritismo será um melhor conhecimento de si mesmo; uma maior compreensão de sua jornada imortal; o consolo de que sua integridade existencial ultrapassará as fímbrias do que denominamos morte. E, se, realmente, estiver bem orientado (e nem todos o são) atravessará esse momento e esse portal com lucidez, confiança, serenidade, compreensão e conforto, e, talvez, por isso, seja capaz de tornar-se o agente de sua cura.



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